
nos bastidores
a civilização selvagem.
o Leopardo.
o Urso.
a Besta-fera.
o terror.
"outrora este fora um rosto humano" (Otelo).
e ainda
"com o que compararemos?"
assim viam os antigos:
os exércitos do inimigo acamparam contra nós e abriram trincheiras em redor.
cerco.
investiram contra a cidade querida e a desampararam.
dispersão.
passaram ao fio da espada, do maior ao menor, todos os habitantes.
morte.
com o que poderiam comparar?
linguagem apocalíptica. o símbolo é algo que choca.
símbolos para tempos chocantes.
o horror das campinas. o horror dos ermos.
trauma de gerações.
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as civilizações do homem selvagem
as civilizações do homem-Leopardo.
do homem-Urso.
civilizações do cerco, da dispersão e da morte.
o poderio político do inimigo estrangeiro.
cerco.
o poderio militar do inimigo estrangeiro.
morte e dispersão.
o homem-Leopardo.
o homem-Urso.
e o homem se torna outra Besta-fera.
se torna (e não que seja) ele próprio o lobo de si mesmo.
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- e nós? com o que assemelharemos a calamidade que devasta a Terra?
- Como assim "nós"?
não há "eles" e "nós".
somos antigos.
já estávamos aí antes da história.
vivemos um cerco diferente, o último.
a paródia de todos os outros. e a paródia intensificada do inimigo estrangeiro do mundo é precisamente toda panacéia de seu poder restante.
flores sobre a fúria.
dispersos e mortos como nunca.
atraído por uma neurose insólita o símbolo pisa o chão.
olhar extático. olhar que penetra.
a graça de ver.
cerco, controle sobre cada passo.
dispersão, fuga e isolamento.
morte, captura.
a ordem por trás do capitalismo e a ideologia da modernidade.
cerco do corpo e cerco da mente.
dispersão do corpo e dispersão da mente.
morte por dentro e por fora.
duas Bestas.
o Leopardo/Urso.
o Urso/Leopardo.
o Leviatã.
diante das Bestas-feras, das civilizações selvagens,
várias reações.
enfrentamento: a fera não se perturba se a xingam de longe, nem se a alvejam com ovos ou se escrevem injúrias contra ela nas árvores e nas rochas. segue impassível.
mas já alguns querem que ela se vá ou morra enfim. então ela se levanta, rosna e mata.
aparelho repressivo. Guerras "preventivas".
cerco.
dispersão.
morte.
medo: os dispersos. os que fogem.
os precipícios da neurose, os desfiladeiros da psicose.
escaparam para a loucura. a besta os observa atenta, fareja o perigo: no fim eles aprendem a despistar.
perplexidade: o que fazer?
"a neurose é a nossa saída". (Nietzsche)
"proletários de todo o mundo, uni-vos!"
"goze" (...)
enfrentamento ver-sus fuga.
exit:
os negociantes: pele por pele e tudo o que o homem tem dará pela sua vida. o negociante sacrifica dos seus à fera para poder viver.
a essa reação dão o nome de "paz".
os despistadores: os veteranos. conhecem a Besta a fundo e sabem do seu ponto fraco. aprenderam a corrigir seus próprios pontos fracos.
são os vencedores da fera. quando eles aparecem ela morre de inanição.
qualquer dia desses: os traidores.
isto é, a identificação com a besta-fera é outra Besta-fera.
isto é, a apologética ideológica.
a heresia do homem-deus, isto é, a morte do homem.
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a neurose é, por enquanto, minha saída também.
educada no pavor sua inconsciência conheceu a arte do despiste.
"subi cá".
obs: a simbologia das feras é tirada, claro, do apocalipse. no terrificante cenário do capítulo 13 o vidente vê uma Besta emergir do mar e preponderar sobre os homens. a aparição revela a síntese definitiva dos vários gêneros de poder opressor (corpo multiforme) simbolizando a complexidade de sua atuação ambígua, isto é, sedução e massacre, maravilha e horror.
(Cf: Daniel 7).
theopneutos: sim, sociedades da Besta humana. a luta por território deu lugar à competição pelo consumo. ainda estamos na pré-história da vida livre, ainda presos no reino da necessidade.
(em todo caso a vitória da síntese não significa a concordata da dialética. no homem contradição e absoluto concordam em um).