
11 minutos atrás: o mundo Babel
"mas a Terra totalmente esclarecida resplandece sob o signo de uma calamidade triunfal"
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"o fracasso ensina, o triunfo ilude".
e eis que de repente São Narsalo foi feito meu livro sobre Almotássim.
obrigado Borges e mais ainda obrigado Iahweh Deus Pai.
180 d.c
establishment romano:
Narsalo foi um dos onze santos silitanos decapitados a mando do Imperador Cômodo por professarem a fé subversiva.
seus pertences foram enviados para sua família na Numídia.
300 anos depois de sua morte o núncio da província espanhola de Cartagena achou um pequeno manuscrito no relicário do mártir.
"quando o tirano morre seu reino acaba, quando o mártir morre seu reino começa" - Kierkegaard
descobriu-se que São Narsalo era um exegeta de mão cheia. seus apontamentos formam, em conjunto, uma hípercrítica magistral à todo poder totalitário elaborada a partir desse modo singular de pensar, sub specie aeternitatis, um pensar e ler a realidade que a academia vendida tenta esconder e desqualificar a todo custo.
nota: o símbolo, a maneira mais direta para se falar do Mesmo, do permanente, ganha no pensamento hebraico e no cristianismo primitivo um viés político sem paralelos: esse é o gênero apocalíptico que tanto confunde cabeças desavisadas. não se trata de "visões do futuro" mas do simbólico a serviço da denúncia e da promessa. nele o histórico e o não-idêntico são sempre acidentais.
é um gênero literário sub specie aeternitatis do começo ao fim.
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eis os apontamentos de São Narsalo:
"o que foi isso há de ser e nada há que não tenha sido.
"vinde façamos uma torre cujo topo atinja os céus e tornemos célebre nosso nome"
não foi por ter construído a Torre de Babel que aqueles homens se encheram de um orgulho insensato. antes, a torre de Babel é o fruto posto aos olhos pela ambição desmedida dos filhos de Nimrod.
o que nasce no coração vem ao mundo. primeiro como palavra.
depois como forma. a forma é um momento da palavra.
a torre de Babel fala sobre um mundo onde o Senhor foi esquecido e ficou só o homem e sua sede de ser célebre.
e ficou só o homem e sua imensa sede de poder, e o orgulho de subir, sua enormidade.
queres ver a forma como isso aparece diante dos olhos? vede a Torre. é o homem a subir.
nota: aqui "subir" vai muito além do sentido físico, claro. é ambição de um homem que nunca se contenta com o que tem e nunca se aceita. só um arrogante que se enxerga triunfal: hoje auxiliar, amanhã gerente, depois executivo, depois a presidência, depois o mundo! a torre, o edifício, seria isso em forma concreta(da).
"eia, desçamos e confundamos a sua língua para que um não entenda o que o outro diz.
destarte os dispersou pela face da Terra e cessaram de construir a Torre"
todas as tradições falam de um mundo onde se falava uma mesma língua.
isto é, todos se entendiam sobre um só projeto. todos tinham um mesmo intento.
nesse momento o Senhor é-nos desfavorável.
nota: aqui o problema se aprofunda. geralmente dizemos que "nós não falamos a mesma língua" para se referir à uma discordância com alguém. mas parece que São Narsalo - que, pelo que se nota, conhecia a fonte javista como poucos - aponta a mira para a questão da uniformidade. a Babilônia dos zigurates era uniformidade. Jerusalém, um esforço para ser sinfonia. numa sinfonia todos os instrumentos devem tocar em harmonia, se um quiser se sobressair produzirá confusão. Babel é confusão porque apenas uma voz quer falar. quem fala diferente não tem vez. e além disso há sempre mil pareceres sobre o mesmo assunto, ninguém se entende.
qualquer semelhança com esse mundo bizarro em que vivemos é pouca.
e o homem foi disperso.
o braço do Senhor desceu contra as grandes campinas e os mais altos montes.
quem não viu nisso um julgamento?
confusão e dispersão.
eis o veredito do eterno.
nota: esse imenso aglomerado humano chamado metrópole, esse labirinto onde caiu o homem que queria subir ao céu, esse monstro não tem como subsistir senão devorando vidas humanas. para cada cinco bocas que consomem sem parar uma se fecha para sempre e isso não é uma crítica à censura. esse mundo faliu.
sub specie aeternitatis...dias vem em que a periferia vai inundar o centro sem dó nem piedade. o império não pode conter os bárbaros indefinidamente.
isto é, dispersão.
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enfim, quem quiser o Borgeano texto de São Narsalo na íntegra, entre em contato.
ele traz comentários "nihil obstat" do apocalipse - as duas Bestas, a Puta, a grande Babilônia, o dilúvio, o Éden, aolá e aolibá e toda imensa atualidade desses temas desprezados pelo douto moderno.
para nós estudantes que não fomos lobotomizados pelo ceticismo deplorável que nos é imposto sem sermos perguntados, o pensamento sub specie aeternitatis surge como um oásis para o viajante sedento de novidades. é o que é melhor: não é uma miragem.